domingo, 22 de abril de 2007
Sinopse Ivanov
Assinalada como uma das primeiras peças de Anton Tchekov é comum atribuir-lhe alguma menor mestria na escrita das situações e no desenvolvimento e encadeamento das suas cenas. Não é por certo estranho a este comentário, o súbito e extemporâneo gesto final da peça e do seu personagem principal que se suicida por entre os convidados do seu próprio casamento. A violência de tal atitude é tal que interrompe a peça nesse mesmo momento e transmite-nos a nós espectadores uma sensação de absurdo e estranheza que leva a apontar a perplexidade e a dor na direcção do autor da peça. Aparece-nos como injusta e mesmo irrazoável tal decisão. Parece-nos estar perante um artifício formal que revela a incapacidade do autor, para dar um outro fim a um personagem que fomos aprendendo a conhecer e a reconhecer nele algo que é também nosso: assim o brutal final assusta-nos como se fossemos nós que o tivéssemos perpetrado ali mesmo em publico.
Ivanov é uma peça enigmática pela sua simplicidade, pelo seu desejo de nos falar de um homem forte, carismático mesmo, um idealista que tentou afirmar a sua individualidade e necessidade de diferença o que o levou a casar por amor com uma judia, afrontando todas as normas sociais do seu meio. Sara a mulher de Ivanov adoece gravemente e acaba por morrer. No meio deste processo, a tristeza invade Ivanov que acaba por aceitar a paixão de uma outra mulher, ainda antes da morte de Sara. A luta entre o amor e a honestidade, entre os instintos e a razão cavam um enorme abismo ao seu redor, vindo a provocar um crescendo de conflitos entre aqueles que ama, para os quais ele como Cristo encontra uma saída: a sua morte.
sábado, 21 de abril de 2007
NOTAS PARA REFLEXÃO SOBRE IVANOV E O NOSSO TEMPO
Pretendo alargar-me a algumas destas áreas nesta introdução, pois sei que é muito difícil separá-las, sei que algumas inibem o desenvolvimento de outras e sei que a sua análise é sempre uma frustre tentativa de simulação de um passado vivido ou entrevisto. Quero colocar este texto de reflexão mais no passado do que no futuro, permitir uma viagem sobre as coisas que não consegui dizer, mais do que sobre aquelas que o meu desejo me faz querer dizer depois ainda de me calar. É um texto de reconstrução mais do que desconstrução. Requer por isso um lento caminhar em círculo, mais do que um caminhar em frente. Como a história daquela mulher que todos os dias fazia um passeio pela beira do mar, percorrendo as areias deixando impressas as suas pegadas e depois quando chegava a um fim, para que nada se modificasse caminhava para trás procurando colocar os pés nos mesmos locais exactos que tinha feito, ainda antes de o ma subir e apagar todas as pegadas da praia. Este caminhar de costas voltadas para o tempo, este caminha para lá e para cá, percebendo o caminho que se percorre, esta lenta contemplação do corpo no espaço, do corpo que sangra e que se contorce para sobrevoar a vida interessa me, apaixona-me, lembra-me o caminhar de um actor, de um criador que explora o interior e o exterior de si procurando fundi-los.
Uma das primeiras coisas que se me depara com a leitura e o confronto continuado de Ivanov é o confronto do passado com o futuro. A exemplo daquilo que estamos a viver nos tempos em que vivemos, a inadaptação de Ivanov o seu comportamento confuso, errático e por fim brutal e definitivo, o arrumar de uma questão, como ele diz, o tratar de um assunto que é a vida para todo o sempre, limpando o mundo e as consciências do peso de mais um problema aparentemente sem saída, sem solução, é uma metáfora do nosso desabar. Encontro aí sintomas ou prenúncios de algumas das coisas que estamos a presenciar hoje, agora. A tentação para viramos costas ao passado e caminharmos em direcção ao futuro é uma delas. Este procurar colocar no futuro tudo aquilo que pretendemos da vida, relegando o passado para uma posição de esquecimento diminui estreitando as hipóteses de compreender os passos a dar. Parece que só somos capazes de nos vislumbrar a existir num momento que não existe e que nos escapa eternamente. Este sentir acaba por se tornar uma obsessão que nos adoece e nos enfraquece retirando espaço ao olhar, ao sentir o que somos. Colocando-nos em causa, num território escorregadio, faz com que nos sintamos falsos ou mesmo desonestos. Aliás este insistir na honestidade e na desonestidade, de que o médico Lvov tanto insiste em culpabilizar Ivanov é sinónimo de uma derrapagem dos conceitos para uma generalização dos mesmos, para uma globalização dos valores. Nesse sentido a profunda ingenuidade, quase inocência de posições de Ivanov desembocam num plano de desonestidade quando observados pelo prisma do medico de família que acompanha os últimos dias da doença da sua mulher. É curioso este duplicar de perspectivas aqui tão ferozmente postas em confronto. Ambos procuram ser honestos: consigo mesmos, com os outros, com aquilo que aprenderam, com o mundo onde vivem, com o futuro. Um deles, o médico parece deter a razão, o seu espírito analítico dá-lhe a força dos argumentos sociais, de um pai que admoesta um filho que se porta mal, que sai dos caminhos do bem; mas neste confronto não somos capazes de ser solidários com a confusão que vive Ivanov; é mesmo com ele que as nossas preferências se colam, abandonando a razão dos contratos sociais, as lógicas de uma união para a vida, de um casamento que foi feito por amor, afinal de contas, mas do qual se perdeu a razão de ser, algures no caminho, no existir diário, ou no gesto simples de procurar interrogar aquilo que se sente.
Uma segunda interrogação vem nesta sequência e põe-se no meu entender nesta ideia de que os sentimentos e nomeadamente o amor contêm em si uma dimensão de repressão social muito para além daquilo que nós os que somos chamados a considera-lo e a praticá-lo apreendemos. A ideia de que alguém pode não amar ou de não sentir nada que se assemelhe ao amor, é um dado obscuro e misterioso, que logo ressalta para a incompreensão; para o tipo de acusações que povoam os territórios do medo e da incapacidade, das dificuldades que se transformam em deficiências, e que levam à incompreensão e por vezes mesmo ao ostracismo. O terror invade subterraneamente os discursos e os olhares, e por debaixo da palavra amor e dos seus derivados e sucedâneos mais piedosos ou honestos, mais carnais ou espirituais, emergem as reacções que separam, que distinguem, que diabolizam. Por debaixo desta incompreensão da impossibilidade de Ivanov para o amor, o que o aproxima de um D. Juan agora por debaixo de um prisma oriental industrial, sobre uma paisagem de fim de uma aristocracia que não quer ser burguesa, ou de uma burguesia que não se quer aristocrata na separação dos seus próprios modos de sentir, que se confunde a si própria nos seus argumentos e razões mais profundas, por debaixo desta incompreensão deste mutismo, Ivanov não sabe porque não sente, mas sabe que não consegue sentir. O terror dos seus conterrâneos tem a dimensão de um abismo intransponível, de uma história que não faz parte dos seus modos, de um gestos que não é reconhecido como integrante dos seus hábitos. E recusa-o, estranha-o expele-o para fora da sua própria organização em nome da honestidade, dos bons sentimentos e da sua própria sobrevivência. E o mais paradoxal é que nem Sara, a sua putativa amante, aquela que mais o ama segundo as regras do mundo onde vivem, sejam elas honestas ou desonestas, mas são aquelas que todos aceitam, nem Sara o consegue fazer sentir esse amor que tudo salva, ou como assistimos tudo deita a perder. O facto de existir alguém que momentaneamente deixe de sentir ou que entre numa confusão de onde e como não saber o que sente ou que perca o impulso e o porquê de sentir e o que há-de sentir, leva-nos para um abismo, conduz-nos à impotência total e à clausura, ao cerco das emoções. Cria um curto-circuito microscópico que vai pacientemente inflamando o território à sua volta porque a sua fonte de energia, o caminho que posteriormente existia foi interrompido mas continua a desaguar por ali o caudal das emoções que assim se descontrolam. Um homem sem sentimentos, sem sentimentos de amor é um perigo letal para a sociedade em que se insere.
Esta ultima ideia, esta imagem de um homem que por uma razão desconhecida até mesmo para si próprio, interrompe ou altera o fluxo sentimental, tornando-se incapaz de sentir do mesmo modo que os outros, conduz-me à imagem de Cristo. Do mesmo modo que Ivanov, Cristo morreu para nos salvar, para salvar a humanidade, por amor connosco, de um modo que lançou nos tempos um enigma que até hoje não conseguimos esquecer. Porque será que Cristo sentiu que apenas morrendo nos podia dizer certas coisas que não entenderíamos se ele não morresse voluntariamente ali mesmo à nossa frente? Por amor? Estranha forma de amor esta decisão que se aproxima de um suicídio, ainda que diferentemente de Ivanov seja perpetrado por outras mãos que não as dele. Também Ivanov decide pôr termo à vida, num gesto que nos confunde entre a infantilidade e a generosidade de fazer parar a história, de perpetuar um momento, de o tornar inesquecível no tempo.
Há mais para dizer, mas o tempo ruge e temos de avançar sempre. Ou podemos andar para trás?
João Garcia Miguel
Caldas da Rainha, 18 de Abril de 2007
Eu e a minha amiga saudade, respiramos juntas o ar de silencio tormentoso,que nos oferece esta nova terra.Ela enxuga-me as lágrimas sem me tocar e apazigua-me o espírito numa casa que não é a minha.Sopra-me ao ouvido se me agarram ventos maus.Abraça-me se arrefeço,acompanha-me calada,paciente.
A beleza do sitio onde estou agora é compreensível,mas não me preenche.Não bombeia o coração com sons e imagens que se repetem de forma estridente,como tão bem faz a minha Lisboa.Não me arrepia a pele quando acordo.Aqui acordo numa cama que não é a minha.Não me deixa tocar no murmuroso movimento que centenas de pessoas largam como rasto ao passar,quase em forma de coreografia .Aqui não há centenas de pessoas a passar.Muito menos em forma de coreografia.
Aqui o sol não me parece brilhante.De onde eu vim o sol cega-nos.Mancha-nos a pele com um tom que se parece com o da água quando está cheia de espuma e a conseguimos ver a evaporar ao mesmo tempo.O tom branco que nos mancha a pele ,torna bonitos os segredos mais sujos ,que todos conhecemos,e que nos visitam todos os dias na nossa Lisboa.Limpa só o necessário,a nossa superfície.Não nos apaga.Lisboa não apaga quem a pisa ,quem lhe grita,quem a ama,quem a destrói,quem a conhece,quem a visita,quem a ameaça,quem a ouve,quem a cala,quem a cria.
No sitio onde eu estou as pessoas não gritam,não se batem em publico,não morrem de forma trágica,não há pobreza,não há incompetência nem enganos.Não há maldade no seu estado mais puro para que a possamos saborear,sentir,tocar ou beijar...O sol aqui apaga as pessoas.As pessoas aqui não são pessoas.
A imundice do sitio de onde eu vim,alimenta-me,inspira-me,revolta-me,comove-me,muda-me ,segue-me,atrai-me,abraça-me,espera-me,deseja-me,e não morre.E não me deixa morrer.
A minha Lisboa entope-me de cheiros que conheço ,que desconheço,que adoro.Enlouquece-me com monstros e muralhas gigantes que me obriga subir.Que me obriga a vencer.A viver.A esquecer.A guardar.A ceder.
Cala-me com a sua sabedoria intemporal,pinta-me com os tons que conhece,cria-me.Fascina-me com uma beleza crocante ainda a ferver,que me queima a língua se lhe lambo a verdade.Consigo sentir.Balança-me ao ritmo de uma energia mecânica e inconsciente.Arrasta-me com a força que tem nos braços.Nunca me conta tudo.Cansa-se sozinha.Beija-me com a sua tristeza silenciosa sempre que se cala.Afoga-me a mente com pensamentos que não quero evitar.Consome-me a alma com a sua sensualidade de chocolate urbano.Assalta-me a consciência com a sua noite fria,com a sua noite quente,com a sua noite escura,acordada.Perdoa-me se a interrompo.Consigo sentir.Solta palavras de charme quando grita,e tenta-me com a sua doce extinção.Consigo sentir.E que bom que é sentir a suja podridão em que nos conhecemos minha velha e poderosa Lisboa.
Sara Ribeiro