Assinalada como uma das primeiras peças de Anton Tchekov é comum atribuir-lhe alguma menor mestria na escrita das situações e no desenvolvimento e encadeamento das suas cenas. Não é por certo estranho a este comentário, o súbito e extemporâneo gesto final da peça e do seu personagem principal que se suicida por entre os convidados do seu próprio casamento. A violência de tal atitude é tal que interrompe a peça nesse mesmo momento e transmite-nos a nós espectadores uma sensação de absurdo e estranheza que leva a apontar a perplexidade e a dor na direcção do autor da peça. Aparece-nos como injusta e mesmo irrazoável tal decisão. Parece-nos estar perante um artifício formal que revela a incapacidade do autor, para dar um outro fim a um personagem que fomos aprendendo a conhecer e a reconhecer nele algo que é também nosso: assim o brutal final assusta-nos como se fossemos nós que o tivéssemos perpetrado ali mesmo em publico.
Ivanov é uma peça enigmática pela sua simplicidade, pelo seu desejo de nos falar de um homem forte, carismático mesmo, um idealista que tentou afirmar a sua individualidade e necessidade de diferença o que o levou a casar por amor com uma judia, afrontando todas as normas sociais do seu meio. Sara a mulher de Ivanov adoece gravemente e acaba por morrer. No meio deste processo, a tristeza invade Ivanov que acaba por aceitar a paixão de uma outra mulher, ainda antes da morte de Sara. A luta entre o amor e a honestidade, entre os instintos e a razão cavam um enorme abismo ao seu redor, vindo a provocar um crescendo de conflitos entre aqueles que ama, para os quais ele como Cristo encontra uma saída: a sua morte.
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